sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Análise do Conto "Bucólica" de Monteiro Lobato - Por Edmar Branco e Paulo César M. Rezende


“Urupês”, lançado em 1918, é considerado um dos melhores livros de prosa de ficção de Monteiro Lobato que já representava, na dada época, o Pré-Modernismo. Segundo Ulisses Infante (2008), “o Pré-Modernismo é um momento sincrético da nossa literatura, ou seja, um momento em que coexistem e se mesclam tendências literárias diversas” (a chamada literatura de transição). Em “Bucólica” a presença dessas tendências de forma harmoniosa é bastante notória. Ainda segundo Infante, nem sempre a melhor maneira de avaliar algumas obras Pré-Modernistas seria buscar traços rígidos concernentes a esta escola, assim como se fazia em outras anteriores. Logo, nesse conto, como em todo o livro, percebe-se esta mescla de características, inclusive, de traços modernistas, o que indica sinais de uma época de rica transição entre escolas literárias. 
            Como o próprio nome já diz “Bucólica” retoma a paisagem voltada para a natureza. A narrativa se passa em um ambiente completamente rural, com todos os componentes de uma paisagem campestre de total simplicidade e o autor consegue transferir ao interlocutor uma riqueza de elementos naturais de forma eficiente e bastante sensorial através de suas descrições.
“Ali, o rio. Ingazeiros desgalhados pendem sobre eles as franças, cujas pontas lhe arrepiam o espelho das águas. Caem na corrente flores mortas. O movediço esquife condu-las com mimo até a barulhenta corredeira próxima; lá irritado, amarfanha-as, fá-las pedaços – e as coitadinhas viram babugem.” (pág. 100).
            Em suas descrições, Lobato faz uso das figuras de linguagem de forma inteligente e criativa, enriquecendo a forma de expressão das características ali retratadas sobre o espaço. Nota-se a presença da metáfora como no trecho que segue: “A natureza orvalhada tem a frescura de uma criancinha ao deixar o banho” (pág. 99). A personificação também pode ser notada em “... ela com tanta preguiça de recolher os véus de neblina...” (pág. 99) e “A vegetação, (...) sorri como em êxtase.” (pág.99). Em certo momento, o autor traça uma magnífica comparação entre a natureza selvagem, intocada pelo homem, e aquela manipulada, presente nos jardins, quando faz a intertextualidade desta cena com a Fábula “O lobo e o cão” de Olavo Bilac. Na fábula, o autor, que é parnasiano, faz um diálogo entre o lobo e o cão no qual inicialmente o lobo se mostra invejoso com a situação do cão, que tem casa, alimento e regalias, porém, ao ser convidado pelo cão a se juntar a ele, nota a marca da coleira em seu pescoço e acaba optando pela vida miserável, entretanto, livre.
            Essa abordagem dos elementos da natureza através da descrição do autor como forma de se ressaltar toda a beleza natural do país é um traço nacionalista, que é uma característica do Pré-Modernismo, porém, indicando a passagem ao estilo Modernista e sua definição.
O conto trata-se de uma narrativa em primeira pessoa na qual o narrador-personagem participa assiduamente dos fatos narrados. Por se tratar de um narrador-personagem, ele não é onisciente. Um detalhe observado é que o nome do narrador-personagem não é citado durante a narrativa.
            Analisando a história, podemos perceber que há uma evolução cronológica bem definida, que se desenvolve no fato de o narrador-personagem descrever um percurso observado por ele de forma sequencial. O autor utiliza-se dessa descrição na maior parte do conto, criando o efeito no interlocutor da visualização do cenário com todos os seus detalhes. O enredo faz uma crítica acerca da morte, descaso e todo o atraso da vida do campo. Essa crítica gira em torno da situação que envolve a morte de uma garota aleijada que morrera de sede, negligenciada pelos pais. Desenvolve-se através de diálogos e ações dos personagens, culminado no clímax ao final do conto. Como já fora dito acima, os fatos possuem uma sequencia. O modo como se desenvolvem deixa claro a adoção do tempo cronológico.
            A linguagem utilizada no conto segue tendências de uma renovação que foi percebida no Pré-Modernismo. Renovação essa caracterizada pelo enriquecimento da linguagem devido à incorporação de elementos de origens muito diversas. Retomando os dois momentos do conto: o momento da descrição do percurso e o momento no qual há ações e diálogos descritos, naquele há uma linguagem mais culta e de rico vocabulário, enquanto neste, percebe-se a utilização de regionalismos em uma linguagem informal, como no trecho: ”A menina des’que eu saí, piorou” (pág. 104).
            A primeira personagem a aparecer na estória é Sinh’Ana, com quem ele traça um pequeno diálogo e se despede sem delongas. Em seguida, após descrever mais uma parte do caminho, encontra-se com Urunduva, um velho que sofria de Malária, como pode se entender de acordo com os adjetivos “amarelo e inchado” utilizados pelo narrador e também pelo fato do velho fazer uso da Quina, casca de árvore utilizada para o tratamento da doença. Essa passagem também pode ser tomada como um traço regionalista, pois, a habilidade de curar doenças através de recursos naturais é uma prática que varia de acordo com o local. Pedro Suã, o próximo personagem que o narrador descreve, é um caboclo, pai da menina Anica, que se encaminhava para cuidar do enterro da garota. É neste momento que o narrador toma conhecimento do fato, os dois personagens traçam um curto diálogo a respeito. Continua presente neste diálogo a linguagem informal, típica do matuto do interior do Brasil. A seguir, é mencionada a Dona Veva, que pode ser considerada a antagonista da estória. Ela é mãe de Anica e supostamente maior culpada na morte da menina pelo fato de negligenciar sua petição por água em um momento febril. Por isso o narrador-personagem a compara a Sicorax, uma bruxa shakespeareana que representava uma face negra do feminino. Essa personagem pode ser tida como um pouco mais complexa devido a uma aura de maldade que lhe é atribuída através das descrições que os outros personagens lhe dão.
            Finalmente, o narrador-personagem se encontra com Inácia, “a preta agregada aos Suãs” (pág. 103), que era encarregada de cuidar da menina. A negra, de fala e personalidade simples, mostrou-se a única pessoa realmente preocupada com Anica. Inácia conta ao narrador-personagem detalhes sobre a morte da menina: “Entrei alegre, pensando: A coitadinha vai sarar. Eu que pisei na alcova, dou com a menina espichada na esteira, fria.”, então se dá o desfecho do conto. Essas duas desempenham o papel de protagonistas na triste estória. Os personagens presentes em todo o conto são apresentados de maneira superficial, não demonstrando muito do caráter deles, o que nos leva à conclusão de que todos são personagens planos. Não há mudança imprevisível de comportamento nem ações surpreendentes entre eles, todos seguindo a linha descrita pelo autor.
            Na obra analisada há a presença de polissemia, como por exemplo: “- um bobo que anda pelo cabresto -.” (pág. 102), há a metalinguagem em “Para alguma coisa sirva a literatura...” (pág. 103), inclusive, neste momento, pode se inferir uma intenção do autor em usar esta literatura para criticar. Também devemos nos atentar ao fato de que o conto é verossímil e que a narrativa possui a predominância do uso dos verbos no pretérito perfeito.
            Nesta obra, como em outras do período Pré-Modernista, temos a literatura utilizada como instrumento de ação social, fazendo-nos conhecer mais profundamente a realidade e assim aumentar nossa capacidade de convivência, nossa competência para organizar um mundo mais fraterno.

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